
Setembro Amarelo: Psicologia na Prevenção do Suicídio
Setembro amarelo: Nem todo sofrimento é visível.
Há pessoas que continuam trabalhando, estudando, cuidando da família, conversando com amigos e cumprindo suas responsabilidades enquanto, por dentro, enfrentam uma dor que parece impossível de explicar.
É por isso que falar sobre suicídio exige cuidado, mas também coragem.
Durante o mês de setembro, vemos laços amarelos, campanhas, mensagens sobre saúde mental e iniciativas de valorização da vida. Tudo isso é importante. Mas o verdadeiro sentido do Setembro Amarelo vai muito além de uma campanha que começa e termina no calendário.
Ele nos convida a prestar mais atenção às pessoas ao nosso redor — e também a nós mesmos.
Depressão, ansiedade, perdas, conflitos familiares, dificuldades financeiras, traumas, solidão, relações que machucam e tantas outras experiências podem fazer com que alguém chegue a um ponto em que não consegue mais enxergar uma saída.
Nessas situações, dizer simplesmente "vai ficar tudo bem" nem sempre ajuda. Muitas vezes, o que essa pessoa precisa é encontrar alguém disposto a ouvir de verdade, sem julgamento, e ter acesso ao cuidado adequado.
Prevenir o suicídio também significa criar condições para que alguém possa falar sobre sua dor antes que ela se torne insuportável.
Uma dor que nem sempre aparece
Talvez uma das perguntas mais importantes diante do sofrimento de alguém não seja "por que essa pessoa faria isso?", mas sim: "o que está doendo tanto?"
O suicídio não possui uma única causa. O comportamento suicida é um fenômeno complexo, relacionado à combinação de fatores psicológicos, sociais, biológicos, culturais e ambientais.
Depressão e problemas relacionados ao uso de álcool e outras substâncias podem aumentar o risco, mas não são as únicas situações envolvidas. Perdas importantes, conflitos familiares ou amorosos, dificuldades financeiras, violência, discriminação, doenças, dor crônica, isolamento e acontecimentos traumáticos também podem contribuir para um sofrimento emocional intenso.
E não existe um único perfil de pessoa que possa passar por isso.
Pode ser o profissional que todos consideram bem-sucedido. A mãe que parece conseguir cuidar de tudo. O adolescente que se tornou mais quieto. O homem que aprendeu desde cedo que demonstrar fragilidade é sinal de fraqueza. Ou alguém que simplesmente está cansado de lutar contra algo que ninguém ao redor consegue perceber.
Por isso, a prevenção começa muito antes de uma emergência.
Ela começa quando perguntamos sinceramente "como você está?" — e estamos realmente preparados para ouvir a resposta.
Como surgiu o Setembro Amarelo?
A história que deu origem ao símbolo amarelo está relacionada a Mike Emme, um adolescente norte-americano de 17 anos que morreu por suicídio em setembro de 1994.
Mike era conhecido entre amigos e familiares por seu Mustang 1968 amarelo, que ele próprio havia restaurado. Após sua morte, familiares e amigos começaram a distribuir cartões acompanhados de fitas amarelas, incentivando pessoas que estivessem passando por momentos difíceis a pedir ajuda.
A iniciativa deu origem ao movimento Yellow Ribbon.
Posteriormente, o dia 10 de setembro passou a ser reconhecido como o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, dentro de uma mobilização internacional pela conscientização e prevenção.
No Brasil, o Setembro Amarelo ganhou força a partir de 2015, com a participação de instituições como o Centro de Valorização da Vida (CVV), a Associação Brasileira de Psiquiatria e o Conselho Federal de Medicina.
Existe algo importante nessa história: uma cor que surgiu em meio a uma perda acabou se transformando em um símbolo para lembrar outras pessoas de que pedir ajuda é possível.
Mas é importante que essa mensagem não se transforme apenas em frases prontas ou publicações durante setembro. Falar de prevenção significa criar uma cultura na qual procurar ajuda psicológica seja encarado com a mesma naturalidade com que buscamos ajuda para cuidar da saúde física.
Suicídio em números: por que precisamos falar sobre isso?
Estatísticas podem parecer frias. Mas cada número representa uma pessoa, uma história e pessoas que ficaram.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo. Aproximadamente 73% dessas mortes acontecem em países de baixa e média renda.
O suicídio também permanece entre as principais causas de morte de jovens entre 15 e 29 anos.
No Brasil, dados do Ministério da Saúde referentes a 2021 registraram 15.507 mortes por suicídio. Desse total, 77,8% ocorreram entre homens. A taxa masculina registrada foi aproximadamente três vezes maior que a feminina.
Esses dados não devem ser utilizados para provocar medo. Eles mostram que estamos diante de uma questão real de saúde pública e que falar sobre prevenção é necessário.
Além disso, o impacto de uma morte por suicídio não termina naquela pessoa. Familiares, companheiros, amigos, colegas de trabalho e outras pessoas próximas também podem carregar consequências emocionais profundas durante muitos anos.
Quando quem está sofrendo é alguém que você ama
Às vezes, quem procura informações sobre suicídio não está pensando em tirar a própria vida. Está preocupado com alguém.
Pode ser um filho, uma filha, o companheiro, a esposa, um amigo, um irmão ou os pais.
E então surge uma pergunta angustiante: "o que eu faço?"
A primeira coisa importante é entender que você não precisa — e nem deve — assumir sozinho a responsabilidade de salvar aquela pessoa.
Você pode estar próximo. Pode ouvir. Pode demonstrar preocupação. Pode incentivar a procura por ajuda profissional e participar da construção de uma rede de apoio.
Mas você não precisa se transformar em psicólogo, médico ou terapeuta daquela pessoa.
Também existe um receio comum de que perguntar diretamente se alguém está pensando em suicídio possa "colocar essa ideia na cabeça". Isso não é verdade.
Conversar de maneira direta, responsável e acolhedora pode abrir espaço para que uma pessoa fale sobre algo que talvez esteja escondendo há muito tempo.
O que deve ser evitado são julgamentos, ameaças, chantagens ou tentativas de diminuir aquilo que ela sente.
Frases como "você tem tudo para ser feliz", "tem gente em situação pior" ou "isso é falta de força de vontade" podem aumentar a sensação de incompreensão.
Às vezes, ajudar começa simplesmente dizendo: "eu percebi que você não está bem. Quero te ouvir e podemos procurar ajuda juntos."
Como a psicoterapia pode ajudar?
A psicoterapia oferece um espaço profissional para compreender não apenas aquilo que a pessoa está sentindo naquele momento, mas também os fatores que contribuíram para que ela chegasse até ali.
O objetivo não é simplesmente dizer para alguém "pensar positivo". O trabalho psicológico procura compreender pensamentos, emoções, comportamentos, relações, experiências anteriores e formas de enfrentamento.
Diferentes abordagens da psicologia podem contribuir para esse processo.
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, pensamentos, emoções e comportamentos são compreendidos como elementos que se influenciam mutuamente.
Imagine alguém que começa a acreditar profundamente: "eu fracassei", "sou um peso para minha família" ou "não existe saída para mim".
Esses pensamentos podem aumentar sentimentos de culpa, tristeza e desesperança. A pessoa começa a se afastar dos outros, deixa de procurar ajuda e, com o isolamento, pode reforçar ainda mais a ideia de que ninguém se importa.
Forma-se um ciclo.
O trabalho terapêutico busca identificar e compreender esse ciclo, desenvolver novas estratégias de enfrentamento e ajudar a pessoa a construir formas mais funcionais e realistas de interpretar aquilo que está vivendo.
Estudos científicos vêm mostrando resultados positivos de intervenções psicoterapêuticas na redução da ideação suicida e de tentativas de suicídio. Isso não significa que exista uma terapia milagrosa ou uma fórmula que funcione para todas as pessoas. Significa que procurar tratamento pode fazer diferença.
Terapia dos Esquemas
Algumas pessoas chegam à terapia dizendo coisas como:
"Eu sempre acho que vão me abandonar."
"Nunca me sinto bom o suficiente."
"Tenho medo de precisar das pessoas."
"Não sei por que sempre entro no mesmo tipo de relacionamento."
Nesses casos, olhar apenas para o problema atual pode não ser suficiente.
A Terapia dos Esquemas procura compreender padrões emocionais e cognitivos que foram sendo construídos ao longo da história de vida, muitas vezes relacionados a experiências precoces e necessidades emocionais que não foram adequadamente atendidas.
Por isso, compreender uma crise também pode envolver olhar para relacionamentos, perdas, rejeições, traumas, crenças sobre si mesmo e maneiras que aquela pessoa aprendeu a utilizar para sobreviver emocionalmente.
Muitas vezes, aquilo que aparece hoje é apenas a parte mais visível de uma história muito maior.
Terapia Comportamental Dialética (DBT)
A Terapia Comportamental Dialética, conhecida como DBT, trouxe contribuições importantes especialmente para pessoas que apresentam comportamentos suicidas recorrentes, autolesão e dificuldades intensas na regulação das emoções.
Um dos princípios importantes dessa abordagem é conseguir reconhecer e validar a dor da pessoa sem assumir que ela precisa permanecer presa às mesmas formas de lidar com essa dor.
São trabalhadas habilidades relacionadas à regulação emocional, tolerância ao sofrimento, atenção plena e relações interpessoais.
As pesquisas apresentam resultados relevantes principalmente na redução de comportamentos autolesivos, embora os resultados possam variar conforme o perfil do paciente e o desfecho analisado.
Isso reforça um princípio essencial da psicologia: o tratamento precisa ser pensado para a pessoa, e não a pessoa adaptada a uma técnica.
Diagnóstico não é destino
Pensamentos relacionados à morte podem aparecer em diferentes situações clínicas, como depressão, transtornos de ansiedade, transtorno bipolar, uso problemático de substâncias, traumas e alguns transtornos de personalidade.
Mas é importante não transformar sofrimento em diagnóstico automático.
Uma pessoa pode estar vivendo uma crise emocional intensa sem necessariamente preencher os critérios para determinado transtorno. Da mesma maneira, alguém diagnosticado com depressão ou ansiedade não necessariamente apresentará comportamento suicida.
Diagnóstico é uma ferramenta para compreender e orientar o tratamento. Não é uma definição de quem aquela pessoa é.
Como funciona o tratamento na prática?
Quando alguém chega à psicoterapia em sofrimento intenso, o primeiro objetivo não é "consertar" essa pessoa.
É compreender o que está acontecendo.
O psicólogo avalia a intensidade dos sintomas, o contexto, os fatores de risco e proteção, as relações familiares e sociais, a rotina, o sono, o uso de substâncias, acontecimentos recentes e a história daquela pessoa.
Quando existe risco imediato, a prioridade passa a ser a segurança.
Dependendo da situação, pode ser necessário envolver familiares ou pessoas de confiança, aumentar a frequência do acompanhamento, realizar avaliação psiquiátrica ou recorrer aos serviços da rede de saúde.
E o tratamento não termina quando a crise passa.
Depois dela, é importante compreender o que aconteceu, quais situações contribuíram para aquele momento, quais padrões precisam ser trabalhados e quais recursos emocionais e relacionais podem ser fortalecidos.
Psicoterapia não significa apenas falar sobre problemas. Também significa aprender novas maneiras de compreender e lidar com pensamentos, emoções, relações e experiências.
Psicoterapia presencial ou online?
Hoje, a psicoterapia também pode acontecer online.
Para algumas pessoas, isso facilita muito o acesso ao tratamento — seja pela distância, pela rotina profissional, pelas dificuldades de deslocamento ou simplesmente porque se sentem mais confortáveis sendo atendidas em casa.
O atendimento psicológico online não deve ser considerado automaticamente inferior ao presencial. A escolha depende das necessidades, das condições e da segurança de cada paciente.
Existem situações, entretanto, em que o atendimento exclusivamente online pode não ser a opção adequada. Quando há risco agudo ou uma emergência, serviços presenciais de saúde e urgência devem ser priorizados.
Homens e mulheres podem expressar o sofrimento de maneiras diferentes
Os dados brasileiros mostram que a maior parte das mortes por suicídio ocorre entre homens. Em 2021, eles representaram 77,8% dos registros no país.
Isso não significa que homens sofram mais ou que mulheres sofram menos.
Existem diferenças sociais, culturais e comportamentais importantes na maneira como cada pessoa aprende a demonstrar sofrimento e procurar ajuda.
Muitos homens cresceram ouvindo que deveriam "aguentar", que homem não chora ou que demonstrar medo e fragilidade é sinal de fraqueza. Em alguns casos, tristeza e sofrimento acabam aparecendo como irritabilidade, isolamento ou abuso de álcool e outras substâncias.
Mulheres também podem enfrentar situações específicas de sofrimento relacionadas à sobrecarga emocional, violência, desigualdade, relacionamentos, maternidade, responsabilidades familiares, vida profissional e pressões sociais.
Não se trata de colocar homens e mulheres em caixas. Trata-se de compreender que cada história é atravessada por relações, cultura, experiências e pela maneira como aprendemos, desde cedo, a lidar com nossas emoções.
Setembro termina. A prevenção não.
Talvez essa seja uma das mensagens mais importantes do Setembro Amarelo.
No dia 1º de outubro, as pessoas continuam precisando de ajuda.
A prevenção continua quando alguém finalmente decide procurar um psicólogo.
Continua quando uma mãe percebe uma mudança no comportamento do filho e decide conversar.
Quando um homem entende que não precisa resolver tudo sozinho.
Quando alguém consegue dizer pela primeira vez: "eu não estou bem".
Quando uma família entende que depressão não é preguiça.
E também quando aprendemos que cuidar de quem está sofrendo não significa abandonar o cuidado com a nossa própria saúde mental.
O suicídio é um fenômeno complexo e sua prevenção exige diferentes formas de cuidado: psicologia, psiquiatria, serviços de saúde, políticas públicas, família, escola, trabalho e comunidade.
Não existe uma única causa para o sofrimento. Por isso, também não existe uma única maneira de ajudar.
Psicólogo em Guarulhos: como a Clínica Psico Soul pode ajudar
Na Clínica Psico Soul, entendemos que ninguém pode ser resumido a um diagnóstico, a um sintoma ou ao problema que trouxe para a primeira consulta.
Por trás de cada pessoa existe uma história.
Na psicoterapia, essa história encontra um espaço de escuta, compreensão e construção de novas possibilidades.
Questões como ansiedade, depressão, relacionamentos, autoestima, traumas, autoconhecimento e padrões emocionais podem ser trabalhadas respeitando as necessidades e particularidades de cada paciente.
Os atendimentos utilizam recursos da Psicologia Clínica e de abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental e a Terapia dos Esquemas, além de estratégias comportamentais e princípios da Terapia Comportamental Dialética quando clinicamente indicados.
A Clínica Psico Soul conta com psicólogo e psicóloga em Guarulhos e oferece atendimento presencial e online. Quando necessário, também é possível integrar o acompanhamento psicológico ao atendimento psiquiátrico.
A clínica está localizada na Rua Josefina Mandotti, 344, Jardim Maia, Guarulhos – SP.
Você também pode acompanhar os conteúdos do psicólogo Vitor Misael Silva Peso no Instagram @psicologovitormisael e da Clínica Psico Soul pelo perfil @clinicapsicosoul.
Se você não está bem, não espere chegar ao limite
Nem sempre conseguimos perceber exatamente quando começamos a nos perder de nós mesmos.
Às vezes, o primeiro sinal é o cansaço constante. Em outras situações, é a vontade de se afastar das pessoas, a perda de interesse pelas coisas que antes davam prazer, a sensação de vazio ou a impressão de que nada vai mudar.
Se você está vivendo um período de depressão, ansiedade, desesperança, sofrimento emocional intenso, dificuldades nos relacionamentos ou pensamentos relacionados à própria morte, procure ajuda profissional.
E se a sua preocupação é com alguém próximo, você também pode buscar orientação. Você não precisa saber exatamente o que dizer ou fazer para começar a ajudar.
Se houver risco imediato, procure uma UPA, pronto-socorro ou outro serviço de emergência, acione o SAMU pelo telefone 192 ou procure um CAPS. O CVV também oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Na Clínica Psico Soul, o psicólogo Vitor Misael Silva Peso e sua equipe oferecem atendimento psicológico baseado em uma visão humanizada, ética e responsável da saúde mental.
Você não precisa esperar que tudo fique insuportável para procurar ajuda.
Agende uma consulta com um psicólogo em Guarulhos, presencial ou online, e comece a cuidar da sua saúde mental.
Fontes e referências: Organização Mundial da Saúde (OMS) — Suicide: Key Facts; Ministério da Saúde — Panorama dos suicídios e lesões autoprovocadas no Brasil; Centro de Valorização da Vida — CVV; JAMA Psychiatry — Revisão sistemática e meta-análise sobre psicoterapia e comportamento suicida; PubMed — Meta-análise sobre Terapia Comportamental Dialética (DBT).
Perguntas frequentes sobre Setembro Amarelo e prevenção do suicídio
Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização e prevenção do suicídio. Durante o mês de setembro, diferentes instituições promovem ações para ampliar o diálogo sobre saúde mental, reduzir preconceitos relacionados ao sofrimento psicológico e incentivar as pessoas a procurarem ajuda.
O símbolo amarelo está relacionado à história de Mike Emme, adolescente norte-americano que morreu por suicídio em 1994. Após sua morte, familiares e amigos distribuíram cartões e fitas amarelas incentivando pessoas em sofrimento a pedir ajuda. A iniciativa deu origem ao movimento Yellow Ribbon.
Não. Reconhecer que algo não está bem e procurar ajuda é uma atitude de cuidado. Não é necessário esperar que o sofrimento se torne insuportável para iniciar uma psicoterapia.
Sim. Perguntar de maneira cuidadosa e sem julgamento não coloca a ideia de suicídio na cabeça de uma pessoa. Pelo contrário: uma conversa acolhedora pode criar uma oportunidade para que ela consiga falar sobre aquilo que está sentindo e aceite procurar ajuda.